... e apagou
Então foi assim. Lá pelas dez horas, acho, porque estava dormindo no sofá um pouco antes de acontecer. De repente, as luzes lá em casa começaram a piscar, num vai-não-vai, parecendo que iam se desmontar. Ou estourar. A tv, coitada, ficou na mesma, mas logo a tela escureceu. Do alto do décimo andar, deu pra ver que as luzes de todo mundo estavam enlouquecidas do mesmo jeito.
Ficaram assim, sofrendo a inconstância da corrente elétrica, até que por alguns minutos se mantiveram fraquinhas, acesas por um fio. E de repente, não mais que de repente, numa reação estupidamente rápida, apagou tudo. Em casa, ao redor e ao longe. Do décimo andar, como eu dizia, deu para ver que foi instantâneo. Até parecia coisa de filme. A sala empreteou, as ruas ficaram escuras também. Ao longe, uma sirene brilhava, vermelha, provavelmente de algum sistema de emergência dos prédios ao redor.
Da área de serviço dava para ver a Marginal Pinheiros, igualmente um borrão escuro na paisagem ainda mais escura. As ruas só se iluminavam com os faróis, agora potentemente ligados na intensidade máxima, para permitir alguma visibilidade. Sem internet, sem telefone (nem os celulares funcionaram), sem televisão, pensei em ir até o carro e ouvir o rádio. Mas lembrei. Do décimo andar, como eu dizia, até o carro, era uma longa caminhada - e uma subida ainda mais complexa.
Fui atrás - eu e o marido, também igualmente confuso e maravilhado com aquela situação toda - de um rádio. Na verdade, o mais próximo disso em casa é um aparelhinho de mp3, ultrapassado, velho, funcionando com pilha. Irônico. O marido tem um iPhone, temos todas as tecnologias em casa, e ainda precisamos do bom e velho radinho de pilha.
No meio da noite, consegui conexão com meu pai e minha irmã. Lá também estava tudo escuro. Meu pai ouvira no rádio que era geral - Rio, Paraná, Mato Grosso, Goiânia, e por aí vai. Me lembrou o apagão de 2001. Eu estava no colégio, em prova de matemática. De repente, as luzes se apagaram na escola inteira. Fomos dispensados das aulas - o que se provou um erro, porque todos os alunos se amontoaram na porta da escola, na rua, esperando alguma indicação do que fazer. A fila no orelhão (pois é, celular ainda não era necessidade básica da adolescência) estava imensa. Quando consegui ligar para casa, minha mãe me disse: espere aí, seu pai já foi te buscar. Uma delícia saber que as pessoas cuidam de você sem precisar pedir. Esperei, ele me encontrou, voltamos de carro para casa.
As coisas que a memória da gente guarda...
O mais legal é que eu não fiquei com medo. Curiosa, bastante - afinal, sou jornalista (ha!). Mas me senti criança de novo, enrolada no endredon na sala com o marido, olhando o vazio da noite e esperando as luzes se acenderem no horizonte de novo.
Eu dormi, ele dormiu, fomos para cama, e só às 4 da manhã a luz voltou.
Mas o elevador ainda continua quebrado lá no prédio. E, no décimo andar, como eu dizia...
Quarta-feira, Novembro 11, 2009
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Sally Owens
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Terça-feira, Novembro 10, 2009
Da tristeza
Ando triste. Quer dizer, não assim, triste TRISTE, mas um pouco, sim. Isso provavelmente é fruto do meu exaustivo trabalho - agora eu consegui a proeza de me entupir de coisas o suficiente para ficar na frente do computador umas 12 horas por dia. Delícia. Meu braço/costas/pulso agradecem o cuidado especial.
Mas, sério, ando meio triste. De pensar que essa correria insana ainda vai durar alguns anos. Afinal, como disse uma amiga queridona, "dos 20 aos 30 a gente só de f. mesmo". E é por aí. Trabalhamos feito camelos por um salário mediano e ainda temos que provar para os superiores (geralmente dinossauros invejosos da sua juventude ou jovens inseguros por serem chefes cedo) que somos bons, competentes, responsáveis, inteligentes, pró-ativos (argh), criativos. Em resumo, temos que ser brilhantes o tempo todo - de preferência, sorrindo sempre.
Eu comparo isso a fazer exercícios na academia sem ofegar ou mostrar qualquer sinal de esforço.
Moleza.
E fazemos isso sempre, todos os dias, com todo mundo. E aí vamos escondendo aquelas pequenas coisas do dia a dia que te incomodam porque, bom, francamente, quem tem tempo de pensar nelas? E um belo dia, como roupas velhas entulhadas no armário, elas despencam no seu colo de uma só vez. E aí vem a tristeza.
Tristeza de não ter tempo para nada a não ser trabalhar. Tristeza de pensar que se trabalha 11 meses para ter apenas um mês - um mísero mês! - de férias, paz, e tempo para si. Tristeza de pensar no que seu perdeu enquanto ficou presa até tarde no escritório - a pizza com as amigas, um jantar romântico, um jantar com os pais, um cinema com a irmã, uma série da academia.
Tristeza de ver motivo em tudo isso, mas não ver sentido em continuar sentindo essa tristeza por tanto tempo - afinal, até os 30, eu ainda tenho três anos!
Tristeza. É isso o que eu sinto. Não é profunda e muito menos incapacitante. Mas é dolorida, incômoda, enjoada, como aquelas coisas que eu tento entulhar num armário escuro e escondido na minha alma.
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Sally Owens
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Segunda-feira, Novembro 09, 2009
A tal da Uniban - parte II
Eu achava que essa história já tinha rendido o suficiente, mas, aparentemente, a Uniban decidiu que não, ainda não era a hora de terminar esse bafafá todo.
Quem recebeu os jornais nesse fim de semana tomou um susto: de sábado para domingo, na calada da noite, uma reunião dos cabeças da universidade decidiu que a aluna que usou o tal vestido pink curto (e, convenhamos, nem era assim TÃO curto) deveria ser expulsa da universidade. A decisão foi publicada no domingo, em comunicado oficial, nos principais jornais do país.
O documento (que pode ser lido na íntegra aqui) afirma que a reação escandalosa, descabida, selvagem e ignorante dos alunos igualmente irracionais daquela universidade (que participaram da bagunça) foi "uma reação coletiva de defesa do ambiente escolar".
Devo lembrar aqui que, igualmente "em defesa da moral e dos bons costumes", já vimos mulheres sendo apedrejadas em vários países islâmicos; já vimos mulheres sendo mutiladas em seu órgão sexual, pelo simples fato de que não se pode ter prazer durante o sexo (p. pecado para alguns); e, enfim, lá no passado, as mulheres eram queimadas por serem bonitas, atraentes, ou simplesmente inteligentes.
Devo lembrar que já queimaram livros em nome da "moral e dos bons costumes". E essa época ficou conhecida como a Era das Trevas na Europa. Por que será, não é mesmo?
Vale lembrar também que vivemos em um país tropical, onde as mulheres usam roupas sumárias durante o carnaval (as que usam) e NUNCA vi nenhum desses alunos indo lá reclamar. Pelo contrário, APOSTO MINHA LÍNGUA como muitos desses estão lá, curtindo a nudez alheia, passando a mão quando dá - porque de tão babacas, não conseguiriam msmo conquistar alguém.
Vale lembrar que, por estarmos em um país tropical, nós, mulheres, somos sempre cobradas a sermos magras, peitudas, gostosas, bundudas, e por aí vai. É ridículo, portanto, ver uma menina que assume tudo isso numa boa ser tratada como uma criminosa.
O pior de tudo é ouvir do advogado da Uniban, Décio Lenconi Machado (bom saber o nome dessas pessoas) dizer que a fulana "sempre gostou de provocar os meninos". E ainda continua: "O problema não era a roupa, mas a forma de se portar, de falar, de cruzar a perna, de caminhar." PÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁRA TUDO. Quer dizer então que, se eu estiver usando uma minissaia na rua, um tarado FDP me atacar e me estuprar, a culpa é minha? Ou então se eu estiver falando ao celular no carro e um idiota passar de moto, levando o aparelho, eu provoquei o assalto? E a secretária que sofre assédio sexual do chefe, é porque usou muito decote durante a semana?
Essa lógica é, no mínimo, perversa.
Não defendo a tal moça porque, convenhamos sabe, ela causou na faculdade. E não precisava. Tudo bem, ela ia para a balada, mas dava para ela ir com outra roupa e se trocar no banheiro, sabe? Mas isso nem de longe justifica todas as palavras de abuso e agressão que ela ouviu, o descaso das alunas da universidade (mal comidas, eu sempre falo) que viram e participaram de tudo, o auê de sair cercada por policiais e, agora, essa expulsão injustificada. O problema era ela - a sensualidade da menina, a vontade de se sentir desejada, de flertar. De provocar mesmo. E daí para tudo isso? Alguém vai me dizer que nunca quis fazer isso? E qual é o problema?
O maior abalo não foi na imagem dessa menina, por incrível que pareça. Nem na universidade. Para mim, foi na revelação de que temos moralistas hípócritas na sociedade, uma sociedade jovem e moderna, esperando ansiosamente para darem o golpe e levarem todos para escuridão.
A Idade das Trevas nunca esteve tão próxima em São Bernardo do Campo.
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Sally Owens
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Sexta-feira, Outubro 30, 2009
A tal da Uniban
O assunto está bombando hoje, mesmo que já tenha saído nos sites há uns dois dias. Uma aluna da Uniban, unidade São Bernardo do Campo, foi exageradamente hostilizada pelos colegas de faculdade por usar trajes nada comportados para assistir aula (veja um pouco aqui). Não sei quem se vocês têm acesso ao conteúdo da Folha de São Paulo, mas, quem tiver, seria interessante ler a matéria que escreveram. Até uma professora ficou lá, com cara de indiferente, enquanto a menina era xingada, agredida (sim, sim, os alunos tentavam colocar os celulares no meio das pernas da menina para tirar fotos) e deixava o campus sob escolta policial.
O que me choca nessa história é como as pessoas não enxergam o problema DE FATO. A menina me aparece na faculdade com um microvestido cor-de-rosa, mas pequeno mesmo, daqueles que a gente fica com vergonha só de olhar. Não é o tipo de roupa que eu usaria e... PONTO FINAL. É só eu virar o meu rostinho lindo para o outro lado e ignorar, afinal, cada cabeça uma sentença e ela, a família e o namorado devem se ajustar no que ela acha que deve vestir. Eu posso, no máximo, rir dos homens chamando ela de "gostosa" por onde ela passa.
A questão é: não é problema meu.
MAS, aparentemente, os alunos daquela universidade não pensaram assim. Puros, inocentes, livres de qualquer erro moral ou conduta ética em seus currículos (ha!), eles julgaram que a moça estava sendo ousada demais. E o que se faz com as mulheres ousadas demais, aquelas que sempre provocam os intintos masculinos, sejam por ser sensuais demais ou inteligentes demais? Bom, elas são destruídas. Decaptadas. Queimadas. Em épocas modernas, humilhadas. Como essa pessoa foi.
Eu não me importo se ela abusou da sorte. Não me importo se ela usou a roupa errada no lugar errado, se ela estava realmente ofensiva, se ela acha bonito se vestir como uma prostituta. EU NÃO PODERIA ME IMPORTAR MENOS com tudo isso. O que me choca, o que me assusta, o que me desconcerta e me tira do sério, é ver que existem sempre pessoas pequenas de espírito prontas para julgar o próximo, condenar e aplicar esse tipo de pena mesquinha e de baixo nível. Porque dar um barraco desses é tão baixo quanto usar uma roupa vulgar. Ou não?
E tem mais. E SE, por acaso, a garota fosse mesmo uma prostituta? Ela então merece ser apedrejada, humilhada, xingada? Não pode ser pessoa de bem, legal, boa de coração? E mais importante: por que a roupa curta e a maquiagem pesada incomodam tanto? A confusão começou no banheiro das meninas, quando um grupo de mal-comidas (é só esse termo que encontro para descrever mulheres que perdem tempo e energia fazendo esse tipo de coisa) cercaram a tal para que ela vestisse uma calça. Gente, alowwwwwwwwwwwwww!!!! Vocês não têm aula para assistir, academia para perder os quilos a mais, amigas para fofocar, um livro para ler? Não têm que ir para casa, sei lá, tomar banho, dormir???? PARA QUÊ, peloamordedeus, parar a vida uns momentos e ir atrás de alguém pelo simples prazer de dizer "você me incomoda com essa saia curta"????
Desculpa, mas isso é dor de cotovelo. Despeito mesmo. Inclusive para os meninos - sim, sim, não conseguem pegar mulher bonita de verdade assim, "na raça", e acham que assim conseguem chamar atenção. Humpf.
Aliás, é doloro ver que as mulheres se tratam assim, tão mal. Tenho certeza que a força dos garotos que diziam que iam estuprar a tal (pois é) ficou muito mais potente depois que eles se deram conta de que nem mesmo as meninas estavam do lado dela. Pelo contrário, a agrediam também.
E assim que vamos descontruindo a imagem de sociedade moderna, tolerante, que o Brasil a-d-o-r-a vender lá fora. Mais que isso, vamos evidenciando aos poucos esse machismo velado que vivemos todos os dias das nossas vidas, mostrando que, infelizmente, na falta de censores homens para cortar as nossas vozes, podemos contar com muitas (sim, várias) amarguradas e infelizes para ajudarem nessa tarefa.
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Sally Owens
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11:58
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Quinta-feira, Outubro 29, 2009
Então é isso aí
A vida está passando muito rápido por esses dias no meu quintal, e estou tentando acompanhar o ritmo alucinante de tudo o que está me acontecendo.
Não, isso não é ruim. Na verdade, é uma sensação incrível ver todos os seus projetos e planos saindo do papel, começando a se tornar algo mais concreto, palpável. Dá um p. medo de ver tudo acontecendo ao mesmo tempo, mas, como disse meu maridinho, "quando as oportunidades aparecem a gente tem que aproveitar".
Isso inclui muito trabalho, muito estudo, muita dedicação a tudo isso. E ainda sem descuidar da coisa mais importante, aquela sem a qual eu jamais conseguiria fazer nada disso: a família. O marido. Os amigos e amigas.
E, por fim, sem esquecer que eu sempre preciso de um tempo assim, sozinha, comigo mesma, para colocar os pensamentos em ordem e refletir sobre como as coisas estão ou não boas, se precisam ou não de um retoque. Geralmente algo que eu faço quando escrevo aqui :)
Por tudo isso (e ainda uns projetinhos que quero colocar em prática aqui - vamos ver mais pra frente!), eu ando meio enlouquecida, às vezes bem ausente. Não é fácil acomapanhar a rabeira do cometa!
(Nossa, esse post tá no maior tom de despedida, né! Que coisa ridícula!!)
Bom, esse post é só isso aí em cima. Era só para dizer que eu estou correndo, mas vou continuar voltando pra cá :)
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Sally Owens
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15:15
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Domingo, Outubro 25, 2009
Senhora e senhores, Dita Von Teese
Às 13h38 minutos, chego ao hotel na região central de São Paulo. O domingo amanheceu abafado, embora nublado, bem diferente do sábado de sol e calor que quase derreteu até os mais animados um dia antes. No lobby do lugar, decorado com muito veludo vermelho e dourado, uma modelo alta e de cabelos enroladíssimos, vestida em preto e salto alto, aguardava os jornalistas com uma lista em mãos. Apenas os nomes ali teriam 10 minutos com a diva do burlesco, Dita Von Teese.
Em seguida, a assessora de imprensa - vestida igualmente impecável - surge do elevador. Simpática, sorridente, nem parece que está trabalhando em pleno domingo. Aliás, o bom humor imperou hoje - algo raro entre jornalista, sempre tão reclamões, sempre tão chatos. Ela nos convida para subir; Dita está ainda em sua suíte, se preparando, mas logo irá nos receber.
Subimos. Chegamos a uma sala, também decorada com peças douradas e em veludo, embora mais discreta que o lobby. Enquanto aguardamos, coquetéis são servidos em taças de martini - Dita veio ao Brasil à convite de uma marca de licor e vai apresentar seu famoso show dentro de uma taça do icônico drink (muito embora estejam servindo uma receita da marca, e não o drink preferido de James Bond).
Dita começa a agenda de entrevistas do dia, e logo minha vez chega. Estou nervosa. Um frio no estômago é sempre bom; é para nos lembrar que temos sangue correndo em nossas veias; que, apesar de jornalistas, também somos fãs, também temos vergonha de sermos simples mortais. Na hora, é claro que nada disso conforta. O importante, eu sempre penso, é manter o controle. Isso é fundamental para levar a entrevista por caminhos conhecidos e que sejam relevantes para o que eu quero escrever.
Essa confusão de pensamentos revira meu estômago. Mas subitamente sinto uma calma quando entro na sala reservada para a entrevista. Ao passar pelas cortinas brancas e leves, fechada de forma incompleta na porta de vidro quadriculado, me deparo com uma boneca. Sim, sim. De porcelana. Pele perfeita, branca, finamente maquiada, corpo enxuto, madro, mingon. Dita usa um vestido lilás com saia plissada e muitos babados ao redor do pescoço e dos ombros desnudos. O decote é generoso e deixava entrever muito mais do que uma garota tímida e comum de Michigan permitiria. Mas, talvez pelo sorriso delicado emoldurado por lábios marcado com batom vermelho, pelas feições igualmente suaves e pela cor do vestido, não percebi vulgaridade. Os cabelos negros - ela é loira de nascença - estão penteados, anelados, divididos para o lado. Dois pequenos brincos brilhantes repousam em sua orelhas e aparecem de tempos em tempos, quando ela ajeita as mechas com as mãos.
É nesse instante que me apaixono. Não pela personagem que, francamente, pertence ao show burlesco e às fotos sensuais que fazem dela um sucesso. Dita usa sua beleza e feminilidade, mas ela ainda é gente como a gente - apesar de ser, de fato, uma pin-up. Ri de si mesma ao dizer que jamais seria uma dessas modelos lindas, loiras e naturais, e assume que a luz num ambiente faz milagres para qualquer mulher. Deixa claro que, no dia a dia, não consegue ter tempo para se maquiar como uma pin-up - a não ser que vá falar com a mídia ou fazer algum evento. E é fofa: assina um pôster para minha irmã (que é fã) e ainda tira uma foto comigo.
Dez minutos se passam e a sensação é que foram dez segundos. A minha vontade - bem como de todos os jornalistas que falavam com ela - era de dizer: escuta, você quer ser minha melhor amiga???? Posso ser a sua então????
Voltei para casa feliz. A entrevista foi boa e eu ganhei mais um ídolo. Mas, acima de tudo, voltei com a sensação de que amo minha profissão. São essas pessoas que fazem o sacrifício de trabalhar num domingo a tarde valer a pena.
De verdade.
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Sally Owens
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Sexta-feira, Outubro 23, 2009
Especialmente para o meu maridinho lindo (que faz o melhor brigadeiro do mundo!!!!)
... porque às vezes é divertido brincar com as regras.
Serto / Obcessivo / Palhasso / Prassa / Preça / Presso / Carrosseria / Carrocel / Cançaso / Obssecado / Obceção / Exsseção / Exsseço / Exssecivo / Acertivo / Dicertassão / Asserto / Assento / Acim / Miça / Missanga / Cacino / Traveceiro / Açacino / Açacinato / Prosseço / Pocibilidade / Proficional / Groceiro / Açadura / Imprença / Agreção / Transgreção / Compromiço / Giraçol / Vaçoura / Pêcego / Profeçor / Páçaro / Espasso / Bragasso / Renovassão / Sedussão / Comesso / Recomesso / Motivassão / Amarrassão / Saudassão / Computassão / Formatassão / Calssada / Orssamento / Estilhasso / Reforsso / Rassa / Assúcar / Intensão / Aberrassão / Manutenssão / Redassão / Canssão / Intuissão / Constituissão
Amo você :)
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Sally Owens
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11:32
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Quinta-feira, Outubro 22, 2009
Mulher-Maravilha
Há uns anos, eu escrevi uma matéria (que infelizmente não tem link) sobre a "Síndrome da Mulher-Maravilha", uma espécie de comportamento obcessivo que vinha acometendo cada vez mais as mulheres jovens.
Na época, eu era uma mera estagiária e julgava DE FATO que estava exausta.
Eu estava errada.
Hoje eu realmente entendo a complexidade do tema sobre o qual escrevi. E entendo melhor ainda os motivos pelos quais as mulheres - e incluo todas nessa lista, mas principalmente as que estão entre os 20 e 40 anos - estão simplesmente enlouquecendo em silêncio, presas dentro de uma lista de afazeres diários que só faz crescer.
Vejamos.
Mulher que é mulher precisa ter vaidade. Isso então inclui gastar dinheiro com maquiagem (boa), com cosméticos que impedem a ação do tempo, dos radicais livres, da poluição, a ação maléfica da maquiagem (pois é) e a oleosidade (ou o ressecamento - os dois são ruins). Também precisa cuidar da celulite, da estria, da elasticidade da pele, do tônus da pele, da flacidez (impedir que) da pele do corpo inteiro, preferencialmente do bumbum, das coxas e dos seios (por motivos óbvios). Vale lembrar que é bom fazer também limpeza de pele a cada 40 dias.
Ah, sim: mulher que é mulher precisa estar em dia com o salão de beleza, ou seja, fazer depilação de tempos em tempos (inteira, vai, só meia perna não!), unhas dos pés e mãos, tintura impecável, corte. E ainda é bom variar no penteado, fazer escova de vez em quando. Mas aí também não se pode esquecer da hidratação semanal, da hidratação profunda mensal etc.
Mas a mulher moderna não é só aparência. Precisa ler jornais, revistas, livros, periódicos na internet; estudar o máximo de matérias possíveis em quantas faculdades, pós-graduações e mestrados forem possíveis também; fazer cursos livres; participar de programas de voluntariado; ver filmes, no cinema e em DVD, de preferência os clássicos - nada das comédias românticas deliciosas, já que elas não possuem profundidade intelectual. E não queremos não ser intelectuais.
Para não mencionar que queremos ser chefes. Sempre.
Entre um momento e outro dia, há também o cuidado com a alimentação. Muita gordura não pode, muito sal também não, muito carboidrato idem. O café da manhã deve ser reforçado e bem servido e degustado à mesa (mesmo que para isso você tenha que perder uma hora de sono), o almoço deve ter uma montanha de salada e um teco de arroz, e os lanchinhos do dia devem ser frutas, muitas frutas, castanhas, essas coisas saudáveis. Jantar, nem pensar - só se quiser engordar. Pizza e junkie food, apenas na hora da morte. Ah, e líquidos: 2 litros de água por dia. Tem que policiar.
Ao fim do dia, ainda com pique, chegar em casa para encontrar o marido e manter a postura alegre, jovial e contente - mesmo depois de um dia do cão. Conversar de forma atenciosa, sorrir, expressar carinho. São os cuidados da relação que uma mulher moderna deve aprender a cultivar todos os dias. Ah, e é claro: ser uma deusa do sexo a noite inteira.
A noite também pode acabar num happy hour com as amigas, onde o cuidado com os sorrisos e a conversa atenciosa devem ser os mesmos. Ou num jantar com a família (pais e irmãos). Tudo igual.
Para começar o dia seguinte às 5 da manhã e refazer toda essa rotina.
Não estou culpando os pais, maridos ou amigos. Na verdade, como o meu amor querido me alertou ontem, 90% de tudo o que foi cobrado acima (e olha que isso deve ser uns 30% do que de fato nós nos cobramos) vem de dentro, daqui ó, do nosso peito. As mulheres agora querem ser tudo: lindas, sensuais, inteligentes, boas profissionais, boas mães, esposas, filhas, amigas. Um deslize que seja já é o bastante para colocarmos a nossa competência em gerenciar a própria vida em jogo.
Em outras palavras: queremos ser a Mulher-Maravilha. Afinal, ela representa tudo isso: independência, sensualidade, vitalidade, jovialidade, força, inteligência.
Só que não dá. Simplesmente... não dá. Não é possível viver um dia a dia roteirizado, prestando atenção aos detalhes todos para que nada fuja ao controle.
É impossível.
É impossível. Mesmo.
Vou continuar repetindo para ver se me convenço.
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Sally Owens
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12:49
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Quarta-feira, Outubro 21, 2009
Da loucura coletiva
Estava hoje na capa de vários sites: um espancamento de mulheres na Índia, acusadas de bruxaria, chocou o mundo - incluindo a Índia - e rodou os noticiários por aí.
Sim, sim, caça às bruxas é uma coisa antiga, com explicações sociais, psicológicas e antropológicas. Aparentemente, na Índia essa prática é comum em vilarejos distantes (como o da notícia), o que me faz pensar por quê raios eles ficaram chocados então.
Mas a questão não é essa.
A primeira coisa que me chama a atenção é que no meio dos agressores há mulheres. Sim, mulheres. São elas que possuem um tal de "espírito santo", capaz de ver as bruxas. São elas que apontam o dedo para, ha!, elas. Isso para mim é o mais chocante. Ver que mulheres estão se agredindo. Não deveria, contudo, me surpreender. Afinal, já não estamos acostumadas, em qualquer cultura e país, a vermos mulheres criando fofocas e boatos a respeito de outras; a ver mulheres se vingando umas das outras (geralmente por algum homem); a ver, enfim, como nós maltratamos a nós mesmas? Isso é histórico. As mulheres se odeiam. O motivo para mim não é claro. Ciúme, inveja, competição evolutiva? Só Deus sabe. Mas eu não vejo como machucar, humilhar e até assassinar, seja uma mulher, um homem, um animal, enfim, seja minimamente divertido ou mesmo justo, necessário.
Mas, sabendo disso de antemão, eu me pergunto como alguém pode levar a sério esses "tribunais da inquisição". É fato que nos EUA, quando rolou a perseguição contra as tais feiticeiras, tinha muita mulher traída indicando a amante do marido como bruxa - e o pior é que elas queimaram por isso! Na Índia, é comum fazer isso com viúvas, já que, mortas, não vão poder reivindicar as terras da família.
De novo: alguém vê sentido nisso tudo? Não, né?
O mundo é mesmo um lugar muito louco...
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Sally Owens
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Sexta-feira, Outubro 16, 2009
Sexta
Eu adoro sexta-feira. Parece que é o dia em que todo mundo pode se dar ao luxo de não correr tanto, não se esforçar tanto, não trabalhar tanto. As pessoas podem relaxar. Até nas roupas - não à toa, é o casual day (que para mim, jornalista, é todo dia hahahahaa).
O único problema é que, mesmo com esse ritmo leve, alegre e solto, a gente ainda tem que cumprir formalidades. Casual day pero no mucho, sabe? Pois então. Tem coisa mais irritante, estressante, do que ficar em frente ao computador depois de ver todos os sites possíveis, todos os blogs, depois de ter checado seu e-mail duzentas vezes?
Não, né?
A vontade de ir embora é imensa. Na verdade ela é inversamente proporcional à velocidade do relógio. Verdade.
Por exemplo, neste instante, estou aqui aguardando ansiosamente os ponteiros marcarem sete horas. É, minha gente, vida de repórter não é moleza, não ;)
Nessas horas eu sempre penso num professor de física que eu tive no cursinho, o Dozzi. Louco de pedra, coitado. Mas incrivelmente inteligente, coisa de gênio mesmo. E daltônico. Bom, ele sempre dizia que o tempo era relativo. Assim, a questão do tempo como quantidade - uma hora se você estiver sofrendo vai se arrastar, mas se estiver se divertindo (ou com pressa) vai passar rapidinho. Eu sempre achei que isso era coisa da minha cabeça, mas, quando ele mencionou isso em sala - de fato existe uma teoria sobre isso!!! - eu me encontrei.
Bom, essa explicação surreal toda é para dizer que é incrível como as tardes de sexta-feira se arrastam. Incrível. Em compensação, as de segunda, quando eu chego atropelando tudo aqui na redação, passam voando. Hoje, por exemplo, as coisas estão particularmente arrastadas.
E, bom, não vou arrastar mais. Agora é contar os minutos para o fim de semana :)
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Sally Owens
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