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segunda-feira, maio 12, 2008

Humanidade

Meu avô teve uma isquemia cerebral.

Pelo que minha mãe conseguiu explicar, o problema aconteceu porque uma das veias que leva sangue ao cérebro dele morreu. Fechou porque já trabalhou demais, o que diminuiu o fluxo de sangue na região. Ainda estão fazendo outros exames para saber qual o estado das outras veias, mas a lógica é que todas têm a mesma idade. Ele já é um senhor de 95 anos e, bom, essas coisas acontecem a essa altura do campeonato.

Fui visitá-lo ontem. Ele está na UTI. Sem tubos, apenas uma máscara de oxigênio para ajudá-lo a respirar sozinho. Muitos fios. Muitas máquinas. Muitos sons estranhos. Ele não está falando, o que torna tudo um cenário dramático – um lugar estranho, com sons nada familiares, com pessoas nada familiares e ele no meio disso tudo sem poder nem ao menos reclamar.

Ele dorme muito. Não há muito mais o que fazer, afinal de contas. A UTI está cheia – em frente a ele há uma senhora, de uns 50 anos, entubada, sedada. A maioria dos internados ali estão na mesma situação. Por isso, prefiro mesmo que ele continue a dormir e não fique pensando muito. O que mais me incomodou é o cheiro. Cheiro de hospital é algo confuso – enjoado, lembra assepsia. É invasivo. É um aroma que impregna o nariz, as roupas, o cabelo. A memória. Ainda o sinto nas narinas hoje pela manhã.

O meu grande truque começou antes de entrar, ainda em casa. Comecei a fingir que aquele não era o meu avô, que eu não iria acompanhar minha avó (que está, claro, fragilizada), que aquilo não era uma UTI de verdade. Cheguei lá e continuei a encenação: falei amenidades e respirei normalmente. Ao sair, a mesma coisa: não é meu avô. Não é comigo. Não são pessoas que estão ali, deitadas e entubadas. Pode parecer frieza, mas é uma fuga. Eu admito. E explico. Há alguns anos atrás, um professor de português me disse que alienação era o que tornava suportável as tristezas da vida. Ignorar um problema, ele dizia, era uma forma de suportar o insuportável. Uma defesa emocional.

Ontem eu finalmente entendi o que ele queria dizer.

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