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quinta-feira, maio 22, 2008

O funeral

Existem momentos na vida que nos definem. Essa frase clichê e que eu já vi em umas mil produções de Hollywood entrou pela janela do carro ontem à noite, enquanto eu voltava de uma sessão de compras com minha mãe, e aterrissou bem no meu colo como uma grande e pesada bigorna. Foi assim que eu me senti quando meu pai ligou no celular para avisar que meu avô havia falecido.

De imediato, senti culpa. Deveria estar em casa pra receber a notícia, oras. E ainda arrastei minha mãe comigo! Ah, sim, minha mãe: no volante, à noite, não seria exatamente o melhor momento para dizer que o pai, aquele que ela sempre cuidou com tanto carinho, não estava mais entre os vivos. No desespero, enrolei. E, sem coragem, me escondi no quarto quando meu pai deu a notícia.

O restante da noite foi uma grande confusão. Na casa da minha avó, todos chorando muito, embora completamente conformados - com 95 anos, 10 filhos e 9 adultos e formados, ele deixou apenas boas lembranças a todos. Minha avó era a mais agitada, embora muito serena: conversava com todos, contava a mesma história, chorava um pouco e logo começava a fazer alguma coisa. Logo que me viu, tratou de chorar e dizer que ele não conseguiu esperar para o casamento; lembrou de tantas coisas que fazíamos, eu e ele, juntos, quando eu era uma menininha. Meu pai me havia dito para não chorar, e juro que tentei; mas é impossível não demonstrar seus sentimentos em momentos assim. Ouvi, segurei sua mão, deixei as lágrimas escorrerem. E vi que isso a acalmou.

É incrível, mas a vontade que temos nessas horas é de fazer alguma coisa. Qualquer coisa. E foi nesse arroubo de disposição que suegiu a primeira cena estranha dessa história, quando começaram a discutir com qual roupa ele deveria ser enterrado. Mas afinal de contas, tem que ter sapato? Gravata? Ninguém sabia. Ninguém nunca tinha passado por isso! Minha avó deu risada.

A segunda coisa surreal é pensar nas medidas práticas da situação. Enterro, caixão, liberação do corpo, atestado de óbito, velório, flores... não sei como explicar. Só consegui sentir uma imensa sensação estranha e nada aflitiva dentro do peito, uma vaga idéia de estar em um universo paralelo vivendo uma brincadeira completamente insana.

Hoje, durante o velório, mais dessa sensação me invadiu. Encontrei MUITA gente que nunca havia visto na vida. Sabe como é, a família se reúne apenas em casamento e velório. Mas a sensação de ver tanta gente indo e vindo, dando os pêsames e convernsando, mesmo que rindo, é reconfortante. Entendi que o velório, mais do que uma despedida, é um ritual de conforto para quem fica. Tenho certeza que todos ficamos muito felizes de ver como meu avô era querido e amado por tantas pessoas.

Outras coisas tornaram tudo mais surreal. Eu, por exemplo, entendi que a velocidade dos meus pensamentos e a censura que ele devem sofrer em alguma parte do meu cérebro não atuam de forma perfeita. Várias vezes, ao longo do dia, me peguei pensando em entregar convites de casamento a pessoas que nunca encontrava, mas estavam ali, diante da minha pessoa; ou perguntando se estava tudo bem quando, obviamente, não estava; ou até mesmo rindo de alguma conversa fiada. Sabe, pensamentos inconvenientes que insistem em surgir na sua cabeça como uma janela pop-up absurda. E tenho certeza que muitos viveram isso hoje. E aceitei isso como algo humano. Eu me permiti ser falha nesse momento, e entendi que faz parte da vida continuar a funcionar, mesmo quando ainda estamos juntando os pedacinhos do nosso coração.

Esse foi meu primeiro velório. E talvez por isso, não consegui chegar perto do caixão. Não queria, na verdade, ficar com aquela imagem dele. Aquele não era mais ele, era apenas... um corpo. E mais uma sensação estranha me invadiu. Afinal, se aquele não era meu avô, cadê?! Minha tia disse para meu primo de dois anos que ele tinha virado estrelinha, e que poderíamos vê-lo agora todas as noites. Acreditei nessa versão.

Mas tudo isso foi tranquilo. Aceitei que era sua hora e não tenho arrependimentos ou pendências. Ele foi uma pessoa muito difícil quando estava ativa, mas me criou de forma muito carinhosa, como um pai mesmo. Todos na família são unânimes em dizer que o meu nascimento (eu sou a primeira neta) influenciou muito na mudança - para melhor - no humor dele, que sempre foi um homem severo. Mas eu ainda era pequena quando ele teve alguns problemas de saúde que o deixaram com problemas na fala. Nos últimos tempos, ele era uma pessoa lúcida, porém, quieta. Mas a morte do meu avô foi bem resolvida. Choro de saudade, não de tristeza.

Essa calma toda, no entanto, acabou quando o enterro estava no fim. Mais precisamente quando meu pai e dois tios meus jogaram um pouco de terra no caixão já abaixado na cova. A terra úmida fez bolotas que bateram na superfície de madeira, produzindo um som oco. Foi como um soco direto no estômago; um aperto no meu coração; um tapa na cara. Aquilo me doeu mais do que vê-lo deitado ou quando o caixão fechou. A sensação de que ele estava lá dentro foi desesperadora. E não melhorou muito quando a família foi embora e ele não estava entre nós. Percebi, finalmente, que ele não vai voltar.

Uma falta sentida, que nunca vai passar. Mas que com certeza vai se transformar em uma boa lembrança dentro de pouco tempo.

2 comentários:

Jady disse...

Nessas horas, tudo e qualquer coisa que a gente possa falar pode e será contestada por um sentimento interno de "não, você não sabe o que estou sentindo". Então moça, sinta-se profunda e sinceramente abraçada, porque nessas horas, isso é o suficiente.

Unknown disse...

Oi menina, sinto muito por todos vocês...........