Momento
Ela lavava a louça distraidamente na nova pia de granito branco e preto quando sentiu-se arrepiada. Como uma mão suave, mas firme, a música percorria toda a extensão de sua pele. Seus pés, pousados um em cima do outro, passaram a acariciar-se. Movimentava os dedos com a graça de uma criança manhosa. A voz de seu cantor preferido a tocava profundamente, encobrindo os vãos de seu coração. Fechou os olhos. Sentia-se incosciente, tomada por um torpor incontrolável, uma necessidade urgente de sumir, evaporar, flutuar. Acabou se abrindo ali mesmo, sentindo cada nota dizer o que nem ela mesma conseguia mesurar em pensamentos, palavras, sentimentos. Percebeu-se tímida e vulnerável. Enquanto tentava conter-se, a música continuava a tocar-lhe os ouvidos, depois o pescoço, seguindo em direção às curvas de suas costas. Pensou em sentar. Achou que ia desmaiar. Mas o desabrochar de sua alma seguiu-se, contínuo e inabalável. Pensou em derreter, tornar-se um corpo fluído, livre, mais uma vez, como há muito nada nem ninguém a permitia ser...
Click.
Era hora de trocar o cd.
terça-feira, agosto 19, 2008
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