A sexta-feira espelhou o meu coração
Eu chego e ele já está lá.
Sentado, concentrado, acomodado em seus pensamentos. Na tela acesa do monitor de tela plana, última geração, poucas janelas abertas. O e-mail que não dá sossego, um noticiário online qualquer. E o meu texto. Aquele, escrito de coração, meio às pressas, completamente sem inspiração.
Aquele que estava todo errado.
Eu sento, abro minha bolsa e coloco minha agenda sobre a mesa. Tenho medo. A respiração está pesada, quase suspensa, num ritmo agourento. Não é normal me sentir assim, eu repito todos os dias ao acordar. Simplesmente não é normal, eu repito de novo. Enquanto isso, as teclas se mexem de forma dura, certeira. Os movimentos são rápidos. De repente, param. A cada pausa, meus estômago se revira. Não é normal, não é normal, não é normal...
Nada está normal.
Eu não estou no meu normal.
A cada tecla digitada, eu imagino um pedaço a menos da minha auto-estima. Um sentimento que nunca foi grande, de qualquer forma. A cada pergunta, meu orgulho ferido se abre novamente em mais alguns mil pontos. A cada pausa, a pior parte de todo o processo, eu me vejo menina pequena, encurralada em um quarto escuro. Eu choro. Eu tremo. Eu me encolho. E mesmo assim continuo, todos os dias, a empurrar goela abaixo o veneno que me causa tamanha aflição.
Porque, engraçado, eu ainda quero isso para mim.
Eu saio pelas ruas de São Paulo, dirigindo, mas não estou ali de fato. O caminho se tornou automático e eu não vejo mais graça nas velhinhas lentas, nos moleques de carros esportivos. Eu não vejo mais a poesia que é deixar alguém atravessar a rua enquanto chove torrencialmente, ou de ver as crianças saindo da escola. O mundo escureceu ou fui eu que fiquei daltônica?
O barulho cessa, a janela se fecha. Minha respiração continua doentia, embora menos pausada. Na verdade, ela começa a ficar rápida, num crescente dolorido, sofrido, magoado. Os olhos, já marejados, não escondem: eu não estou normal.
E eu queria tanto ter um dia normal.
* para minha querida amiga Nat :)
sexta-feira, maio 15, 2009
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2 comentários:
Nossa, eu comecei a ler e lembrar de um período da minha vida em que eu me sentia exatamente assim.
Não pude deixar de comentar... Um dia passou, não totalmente, mas apenas se foi.
bjs
Amiga linda....se há alguma coisa nesse emaranhado de sentimentos agoniantes que pode ser considerada boa, é saber que, pelo menos, estes dias serviram para aproximar pessoas que sempre estarão ao nosso lado, num surto de choro ao celular, num pneu furado ou numa pizza com cerveja.
Todos os dias aprendo com você, a ser uma profissional melhor, a escrever parágrafos mais longos, aspas mais curtas, a dar valor à familia, ao amor, a ser mais ponderada, a ser mais culta...e algumas outras coisas que só se vê no Dani Channel.
Obrigada por estar aqui do lado, fisicamente e emocionalmente.
Nati
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