Um post do coração
Sexta-feira foi dia de Globo Repórter. Eu não assisto nunca, estou geralmente em aula ou dormindo mesmo (hehehee). Mas, na última sexta, eu cheguei em casa e liguei a TV na Globo. O tema do programa eram animais maltratados, torturados e abandonados pelo ser humano.
Tinha de tudo: macaco que era criado como gente, animal de circo - que é queimado e espancado, entre outros rituais macabros, para fazer todas aquelas gracinhas que os pais adoram mostrar para os filhos, leões abandonados, onças com os dentes cerrados (imagina um canal aberto) e as garras amputadas (sem anestesia, viu?)...
A parte que mais me doeu, claro, foi a dos cães. Não sei se mexer tanto com isso (por causa do meu TCC) me deixou mais sensível, mas o fato é que eu ando mal de pensar sobre a capacidade da maldade alheia. Para quem não viu, o link é este aqui.
Ali tinha de tudo: cão doente abandonado na rua, pit bulls criados para rinhas e que, depois de extremamente machucados e debilitados, são jogados como lixo em qualquer lugar, filhotes de gato abandonados em praça pública... a lista é imensa e sem fim. Além de cruéis, algumas pessoas têm muita criatividade. Foi uma das poucas vezes em que vi um bom trabalho jornalístico feito. Foi objetivo, sério e, ao mesmo tempo, triste, com emoção.
Abaixo, o texto do repórter Marcelo Canellas, que fez a reportagem (e você pode ver no site do Globo Repórter, linkado acima):
A equipe estava sem fome, era cedo, bem antes de meio-dia. Mas tínhamos de almoçar ali mesmo, num restaurante às margens da rodovia que liga São Paulo a Cotia, porque nosso compromisso no Rancho dos Gnomos, onde conheceríamos um santuário de grandes felinos africanos, seria por volta das 13h. O garçom não conteve a curiosidade: "Vocês são do Globo Repórter? E é sobre gente ou sobre bicho?".
Meu primeiro ímpeto foi dizer que “animais abandonados” era o tema do nosso programa. Mas a pergunta do garçom foi como um sopro de lucidez entrando numa frincha da percepção, elucidando o que estava inteiramente oculto. Então respondi, convicto: "É sobre gente, amigo. É sobre a natureza humana".
À medida que fomos filmando pássaros com asas amputadas, leões com garras arrancadas, chimpanzés com presas serradas e todo tipo de seqüelas da violência contra os animais, fui me convencendo de que eu estava certo. Estávamos fazendo uma reportagem sobre o quanto as pessoas, ao odiarem uma outra forma de vida, podem negar sua própria humanidade. E também sobre como podem honrá-la ao amar os animais.
No longínquo ano de 1206, em pleno vigor do espírito feudal que punha suseranos e vassalos em esferas incompatíveis de convivência, um certo Francisco de Assis abandonou os castelos que freqüentava, desfez-se de suas posses, despiu-se até mesmo de suas vestes e foi viver entre os pobres. Poeticamente, chamava o sol de irmão e a lua de irmã. E dizia que nada define melhor a condição humana do que a capacidade de amar os bichos. Não é preciso ser religioso ou acreditar em São Francisco de Assis para saber, mesmo 801 anos depois, que o que nos torna diferentes, o que nos torna especiais, o que nos torna magnânimos em comparação com as outras formas de vida, é a nossa capacidade de amar.
Homens e mulheres têm de sobra as ferramentas do afeto, forjadas na cultura e na vida em sociedade. A tolerância, a generosidade, a idéia de que temos um futuro comum neste planeta são princípios universais conquistados pela Humanidade em sua dura luta contra a barbárie. Não gostamos da solidão, não queremos a dor, não toleramos a humilhação. Se somos egoístas, se ferimos e matamos, se submetemos nossos semelhantes ao vexame da miséria e da pobreza, estamos em desacordo com o esforço civilizacional da convivência. Civilizado convive, respeita, tolera. Os bárbaros subjugam. Tanto faz se os subjugados são gente ou bicho.
Vimos leões entrevados pelo confinamento, chimpanzés esquizofrênicos e atormentados por anos de espancamento, araras cegas, onças mutiladas e todo tipo de sofrimento e privações. Parece a vitória da barbárie. Não é. Porque vimos também extraordinários exemplos de generosidade e dedicação. A grandeza de saber amar e proteger seres vivos que, como nós humanos, também sentem frio, dor e medo, ajuda a recuperar a humanidade que ainda há em cada um de nós. Basta ver o que o Rancho dos Gnomos fez com o leão Will. Abandonado por um circo e tendo vivido a vida inteira trancafiado, Will pôde, aos 13 anos de idade, pisar na terra pela primeira vez. Esfregando as patas na grama, no húmus, na energia mineral da natureza, livre da superfície inócua do chão da jaula, Will nos enche de ternura, nos entope de compaixão e, portanto, nos ajuda a salvar um pouco da humanidade que tínhamos perdido.
Marcelo Canellas
Repórter
Eu sou suspeita, porque amo bicho. E ando numa fase meio deprê, estilo "qual o motivo de tanta maldade dentro do ser humano?". Dia desses, uma amiga me contou que o vizinho bateu com um pedaço de pau na cabeça da cadelinha dela, que é velhinha e estava cheirando a garagem do moço. A pobrezinha passou mal um dia inteiro, mas se salvou. Quando eu, indignada, disse que ela deveria abrir um BO, ela me falou o seguinte: "A mulher dele morreu de câncer e ele nem expressou emoção. Nem a ajudou, na verdade, não deu assistência nenhuma. Hoje, os filhos vivem na rua, não têm educação, vivem como crianças largadas. Morro de dó". Quando vejo um cão na rua, ou mesmo uma caixa apinhada de pássaros mortos, sufocados, que seriam contrabandeados, imagino que por trás há um ser humano sem respeito pela vida - qualquer que seja a fonte dela.
P.S.: São donos irresponsáveis e imprudentes como esta senhora que fazem a caveira dos pit bulls. Não me supreende que tem gente que, depois de ler isso, amarra as quatro patas do animal - não dando chance de defesa, em um ato incrivelmente covarde - e o espanca até a morte...
segunda-feira, setembro 03, 2007
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