Estava lendo o blog do meu querido professor (porque pra mim é assim, professor uma vez, professor sempre!), e ele me fez lembrar do Chile. Mais precisamente do Deserto do Atacama.
Eu nunca quis ir para lá; na verdade, sempre pensei em viagens para a Europa, o Velho Continente, com sua história, sua tradição, a carga de ser o berço de grandes revoluções e fatos marcantes da humanidade... enfim, América do Sul para mim resumia-se ao Brasil (...) e Argentina. Chile, apesar de ter a capital, Santiago, carregada de história com o obscuro golpe de estado dado por Pinochet, nunca me chamou tanta atenção.
Mas os caminhos da vida são estranhos e, em maio, quatro dias depois de perder meu avô, dois meses antes do casamento, lá estava eu embarcando para o deserto do Atacama, o deserto mais seco do mundo (já ficou sem chover por lá durante muitos anos). O convite foi do recém-inaugurado hotel Tierra Atacama, cinco estrelas, um luxo - e incrivelmente aconchegante e hospitaleiro.
Acho que nunca escrevi o que aquele lugar realmente significou para mim. Talvez pelo calor dos acontecimentos, eu simplesmente tenha neglicenciado essa memória. Mas hoje, lendo um post sobre a constelação Ursa Maior (já explico), todas as minhas sensações e pensamentos voltaram.

Me lembro bem do meu corpo ao limite; o nariz sangrando e ardendo (tempo seco MESMO), o ar faltando, a cabeça quase explodindo de dor, as mãos rachadas e feridas pelo frio - sim, no deserto faz frio também! Durante o dia, o sol é implacável: usar protetor solar, boné e óculos de sol é básico. No segundo em que o sol se põe, no entanto, o básico é ter um casaco de nylon resistente aos ventos (fortes) e ao frio. Gorro, luvas, duas calças; vale tudo. A temperatura pode cair dos 25 graus para 10 graus (até menos) em questão de minutos.
E quando isso aconteceu, a paisagem era essa aqui:

Muita coisa se passou. Cheguei a pegar -25 graus nos Gêiseres de El Tatio - uma paisagem improvável, mas completamente fascinante. Também vi salares (antigas lagoas de sal que secaram e deixaram o solo salgado, formando cristais geométricos), andei em dunas, vi formações rochosas em que é possível ver a mão de Deus caprichosamente desenhando os contornos desse mundo. A viagem em si serviu para eu encontrar... bem, eu mesma, as minhas crenças, as minhas esperanças. A inspiração por lá é tamanha que dá vontade de passar os dias passeando, apenas admirando a beleza do lugar.

A recordação que eu guardo com mais carinho, no entanto, não está em fotos (porque era impossível de ser fotografada, diga-se de passagem). Era do céu. O Deserto do Atacama é reconhecidamente um dos melhores lugares do mundo para observações astronômicas. Isso porque, como não chove NUNCA (e não é efeito de texto, é isso mesmo!), não há nuvens atrapalhando a visão. O resultado é que você consegue ver a Via Láctea inteirinha, como se fosse um mapa - até a curvatura é possível de ser observada (já que a Terra é redonda, e não plana). Sair do quarto à noite, apesar de intensamente frio, era maravilhoso, porque bastava olhar para o céu para se desprender daqui e voar longe. Aquele manto de veludo azul-marinho estava salpicado de estrelas e uma névoa esbranquiçada, que eu descobri depois serem nebulosas. Sim, até isso era possível de ser visto dali. (a foto abaixo dá uma idéia do que é estar por lá em uma noite clara...)

Segundo a astronoma (porque, sim, tinha uma astronoma profissional lá para nos guiar) do hotel Explora, que nos ofereceu um jantar durante a nossa estadia, há vários projetos de astronomia no loca exatamente pela facilidade de observação. Com ela, aprendi (mas já esqueci) como identificar as constelações (e daí lembrar de tudo com o post do meu professor), os planetas (sim, dá pra ver!), o céu estrelado, enfim. Mas o mais sensacional, intrigante, maravilhoso, mágico, eram as estrelas cadentes. Quando eu era pequena, sempre quis ver uma para fazer um pedido. Nunca aconteceu. E ali, em questão de minutos, consegui ver duas! É tão rápido, tão breve, que o coração palpita, corre junto, aproveitando os segundos de magia que a estrelinha caindo carrega. Meu coração palpita neste momento, só de lembrar daquela imagem.
Depois disso, o deserto virou um lugar especial. Tem poesia brotando ali. Não vejo a hora de voltar.


Um comentário:
Me lembrou minha viagem pela Patagônia.
Texto Show..
bjo
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