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quinta-feira, junho 18, 2009

No reino encantado das princesas escritoras

Era uma vez quatro princesas escritoras: Cindel, Branca, Anastacia e Rapunzel. Cada uma a seu jeito, todas elas eram escritoras, autoras de belos textos que despertavam o interesse e a curiosidade de muitas, muitas pessoas. Elas eram filhas de um poderoso rei chamado Magno que, apesar de brilhante, tinha muito medo de mostrar sua inteligência.

Apesar de unidas, as irmãs eram muito diferentes entre si.

Cindel, por exemplo, era a mais distraída. Sempre no mundo da lua, tinha dificuldade em ver a ruindade das pessoas. Por vezes, foi feita de boba por aproveitadores inescrupulosos. Mas nunca perdeu a fé nas coisas boas e na certeza de que o fim é sempre feliz. Engajada, politizada, com sacadas incríveis para temas, era o braço direito do pai. O cargo, que inicialmente veio por vontade dela, acabou se tornando um fardo - suavizado pela ajuda da irmã Branca.

Branca, sendo a mais velha, era a mais séria e responsável. Nunca levantou a voz para o pai, embora tenha sempre uma ou outra discordância de suas idéias por vezes tradicionais demais. Refinada, feminina e delicada, Branca foi alvo de uma intensa disputa entre os príncipes locais (um deles, o mais "homem", a conquistou). Culta e extremamente perfeccionista, era autora dos textos mais profundos e reflexivos de todo o reino. Com um instinto maternal apurado, sempre ajudou Cindel nas atividades com o pai.

Anastacia era a alegria em pessoa. Espevitada, divertida e despachada, era o motivo das risadas que ecoavam pelo palácio real na hora do almoço, quando todos se reuniam para a refeição. Briguenta, Anastacia nunca levava desaforo para casa - menos quando era de seu pai o sapo a ser engolido, momento único em que ela conseguia contar até dez antes de soltar os maiores impropérios pela boca. Tanta alegria escondia uma garota doce, gentil, que reescrevia seus textos inúmeras vezes atrás da aprovação paterna. Essa leve insegurança era revelada em segredo à Rapunzel, irmã a qual Anastacia sempre recorria quando precisava de conselhos.

Rapunzel, por sua vez, era a mais experiente das irmãs. Já havia estado em outros reinos distantes e longíquos e sempre tinha uma história inusitada e curiosa para contar às irmãs. Sabia de cor e salteado as expressões mais estranhas e os nomes mais bizarros de todo o mundo e, frequentemente, era alvo de piada por parte da família por saber tantas coisas inúteis. Dentre todas, era a favorita do rei Magno, que enxergava na jovem uma personalidade forte e determinada, exatamente como a dele. Leal, sempre tinha um ombro a oferecer à Anastacia, que sofria por não se encaixar nos padrões rígidos do pai.

A vida no reino de Magno seguia feliz e contente, com todas as irmãs empenhadas em produzir seus textos e livros de forma contínua.

Um belo dia, porém, uma tragédia se abateu sobre o reino. Antes um homem forte, o rei Magno, tendo contraído uma grave doença, ficou muito doente. Em seu leito de morte, já desenganado pelos médicos reais, ele pediu para ficar sozinho. Abriu sua gaveta, ao lado da cama, pegou um pingente de cristal e o partiu ao meio. Uma fumaça verde-esmeralda invadiu o cômodo, transformando-se rapidamente em um ser com asas brancas, pretas e cinzas. O ser era belo, escultural, com a pele de mármore reluzente e olhos pálidos, porém expressivos. O anjo sentou-se suavemente aos pés do rei e perguntou:

- Que queres de mim, ó rei Magno?
- Necessito de sua ajuda, G. Estou prestes a morrer, mas ainda preciso indicar o caminho a minhas filhas.
- M., meu filho, sabia que todas elas já são maiores de 18 anos? Até formadas elas já são! Não tem motivo para você achar que elas não vão saber se virar e...

Nesse momento, o rei, enfraquecido, juntou suas últimas forças e começou a gritar e gesticular:

- COMO ASSIM, G.??!? COMO ASSIM?!?? Você acha que elas sabem se virar sem mim? IMPOSSÍVEL! Eu sou a chave para a vida delas, entendeu??!? Eu sou a chave para todos os textos e livros que elas produzem! Sem a minha ajuda elas nada seriam! NADA!!!

- M., filho, calma, relaxa aí. Você não sabe se elas viveriam sem você ou não, afinal de contas, nunca deixa as meninas sozinhas!

- É CLARO QUE NÃO! Imagina se eu realmente descubro que elas não vivem sem mim. Elas vão querer me matar para ter o reino todo para elas! Vão se voltar contra mim!

Vendo que o rei Magno já estava paranóico por causa da febre alta, G. resolveu cooperar.

- Tudo bem, tudo bem, amigo, amigo. Me conta então, M., o que você quer de mim?
- Bem, G., eu quero continuar vivo. Quero sobreviver a esta terrível enfermidade.
- Hummm... – G pega sua lista – aqui diz que você deveria morrer em 26 horas. Mas acho que podemos dar um jeito nisso.
- Oh, por favor, G., por favor! Isso me faria uma pessoa tão feliz!
- Olha, isso definitivamente te manteria vivo, mas não feliz.
- Como assim?
- Magno, meu rei, veja bem: eu não posso dar a vida a você assim, de mão beijada. Eu preciso cobrar alguma coisa em troca. E no caso... eu cobraria a sua felicidade.
- Não!
- É o preço. Você vai mudar sua personalidade, se tornar um rei inseguro, insensato, por vezes injusto. Será um rei ansioso, necessitado por resultados sólidos a cada hora, a cada minuto do seu dia. Isso custará não apenas a sua paz de espírito e sua felicidade, como a alegria de muitas pessoas ao seu redor.
- Mas... como.... não! Não posso fazer isso com minhas filhas. Eu as amo demais para isso!
- Magno, então por que raios me chamou aqui? Você não achou que ia ser assim, simples, né?
- Tá, tá, tá, tá... eu já entendi. Ai G., que trato, mais desigual!
- M., sério, você não precisa disso. Suas filhas seriam ótimas como equipe.

Mas Magno, sentindo os calafrios da insegurança baterem em sua nuca, resolveu colocar um ponto final nessa história.

- Ok, G., faça aí a sua mágica e me dê a vida de novo. Se elas são tão perfeitas assim, não há nada com que não possam aprender a viver.

Balançando a cabeça em reprovação, o anjo G. bateu suas asas três vezes. Uma lhufada de fumaça azul-colbato invadiu o aposento, envolvendo a cama do soberano. Magno tossiu dez vezes, a cada uma liberando parte de sua doença. Na última, já estava novo em folha.

- Que seja feita sua vontade, alteza – e, dizendo isso, G. sumiu num rodopio de fumaça acinzentada.

A partir desse dia, a vida no castelo real mudou completamente. A família, antes unida e alegre, passou a viver dias de terror, com alguns momentos de paz esporádicos. O rei Magno, antes respeitoso, justo e correto, tornou-se fraco, ansioso e mesquinho – exatamente como o anjo havia dito que seria. Cobrava de suas filhas idéias brilhantes e novas todo dia, e quando estas traziam para casa alguma coisa assim, ele as desdenhava. Cindel passou a ser convocada para reuniões semanais, de onde invariavelmente ia embora aos prantos em direção ao seu quarto. Branca passou a sofrer de gastrite, tamanho era o nervoso e o estado de tensão em que vivia, sempre esperando a crítica do pai - cada vez mais espinhosa e dura. Anastacia murchou. A garota antes cheia de vida encontrava-se agora pensando no que dizer e quando dizer, remodelando sua personalidade para evitar confrontos com o rei – algo que, de tempos em tempos, acontecia, na ausência das irmãs. Mas Rapunzel foi a mais atingida. A preferida do rei passou a ser cobrada de forma cruel, até que, durante um deslize, foi sumariamente humilhada por ele em frente a todos os súditos. A relação dos dois nunca mais foi a mesma desde então.

Até hoje, nesse reino distante, as quatro filhas do rei Magno se perguntam o quê teria causado tamanha mudança no pai querido e carinhoso que elas possuíam. Todas elas, no entanto, sabem que enquanto viverem com ele, serão obrigadas a suportar as conseqüências.

É por isso que elas já estão atrás de outros palácios para morarem.

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